Sessão 03

Meta da produção global de alimentos é consolidar a transparência para seu consumidor final

Autor: Carla Mendes

         Se da porteira pra dentro, como costumam dizer os profissionais da área, os desafios da produção agropecuária e do agronegócio são grandes, pra fora dela são mais ainda. Afinal, são obstáculos que, na maioria das vezes, não fazem parte de seu dia a dia ou exigem ações que fogem do que podem fazer para superá-los. Assim, uma das únicas formas é, de fato, contrariar conceitos ultrapassados. O desafio de imagem é inimaginável.

         Mas, como? E justamente o primeiro passo é saber que perguntas precisam ser feitas. Como devem ser feitas. Que respostas devem ser dadas, como devem ser dadas e de que forma vão penetrar realmente sociedades que desconhecem a comida de que se alimentam. 

         O primeiro passo: fazer perguntas realmente DIFERENTES. Que CONTRARIEM. É dessa forma que as respostas poderão contrariar realmente ideias prontas para perguntas que são feitas tão frequentemente. Não é mais possível realizar perguntar simplistas a sistemas tão complexos como os que compõem a produção agropecuária. E isso é uma máxima para o mundo todo que produz alimentos. 

         E o que já é sabido é que as respostas precisam gerar confiança. A relação das pessoas com a comida, seja em qual sociedade for, é muito forte e alcança diversas esferas. A comida une nos tempos de dor, de alegria, de celebração, de decisão, de reuniões. Em contrapartida, essas mesmas pessoas pouco sabem sobre ela. Estudos mostram que há um abismo grande entre as reais informações sobre os alimentos e o que pensam sobre eles e seus sistemas de produção.

         Assim, um dos caminhos para aproximar as duas pontas de uma balança que está bastante desequilibrada agora é criar um canal construído com dados que sejam capazes de trazer não só informação, mas informação que permita ao consumidor final saber quanta dedicação e preocupação do produtor rural há depositadas naquela comida. 

         É preciso respeitar as diversas perspectivas que são tão diferentes entre o início da produção e o consumo final para que haja transparência. Um estudo realizado pela Universidade de Iowa e o Journal of Rural Sociology mostram que 65% das pessoas pesquisadas querem saber mais sobre os alimentos que consomem. E como explica Roxi Beck, vice-presidente do Look East - um grupo de lideranças que busca fortalecer as relações entre o setor produtivo e seus clientes - são números como estes que confirmam que apesar do desafio ser inimaginavelmente grande, as oportunidades para resolvê-lo, portanto, são inúmeras. 

         O importante é ter um sistema eficaz e profissionais que possam identificar e filtrar os setores que mais exigem da comunicação no agronegócio atuando contra inverdades pré estabelecidas. Para que funcione, Roxi explica também que ao se definir as estratégias é determinante que elas considerem com as escolhas pessoais quando o assunto é alimento são determinantes. 

         Afinal, mais pesquisas mostram também que os valores, a afetividade e a emoção - ao lado das informações que conhecem - pesam de três a cinco vezes mais do que a razão, dados efetivos, números e até mesmo a ciência. É uma batalha de percepções contraditórias e uma das metas é alinhá-las, trazer além de respostas, outros questionamentos. É procurar saber sobre o conhecimento de quem se quer conhecer. É adicionar novas convicções, não substituí-las. O ato de alimentar-se a muitos emociona. Por isso, as escolhas são tão bem pensadas, ainda mais em tempos onde há inúmeras informações tão acessíveis. E mais do que isso, informações com tantas ramificações que não torna difícil encontrar argumentos que confirmem e endossa o seus próprios, inclusive sobre um assunto sobre o qual se discute tanto por quem sabe tão pouco sobre ele. 

         Portanto, novamente citando Roxi Beck, que é especialista em comunicação para a produção de alimentos, não é possível e nem o correto ignorar a ciência e os dados, mas uma alternativa que pode, aos poucos, ser mais eficiente para que as relações entre todos os elos das cadeias produtivas e seus clientes se torne cada vez mais próxima e confiável seja o equilíbrio com que há em seus corações e o que dizem os seus valores com os fatos e a realidade.

Federico Trucco

Genética, pesquisa e incremento de produtividade: ferramentas do agro do agora

Autor: Carla Mendes

          "A agricultura é a arte e a ciência de fazer bom uso da fotossíntese", essa foi a declaração de Federico Trucco, CEO da Bioceres Crop Solutions durante sua palestra. E talvez este seja o maior objetivo de toda a produção mundial de alimentos e de todo produtor que faz parte desta cadeia complexa.

         O objetivo da Bioceres - que hoje já é um ecossistema que une diversas empresas do setor, de tecnologia e produtores rurais - é o de otimizar resultados pensando, principalmente, em pessoas. Isso se dá diante da relação tão próxima, mas ao mesmo tempo tão distante, das pessoas com os produtos agropecuários que possuem diariamente. 

         Tais soluções, afinal, buscam minimizar os impactos ambientais das produções em todo o planeta. E este tem sido, inclusive, o tema mais debatido nos eventos destinados ao agronegócio dos últimos tempos. Neste ano, com a pandemia do novo coronavírus e com os problemas ambientais que o Brasil vem enfrentando, as discussões se intensificaram.

         Como produzir mais e seguir preservando? Como preservar mais sem "descomoditizar" a agricultura? Esse também é um questionamento de Trucco. A commoditização de diversas culturas é uma prática que vem auxiliando no melhor e mais amplo acesso à comida pela parcela mais carente da população.

         Com tecnologias como variedades de algumas culturas resistentes à seca, por exemplo, o alcance da produção em áreas já abertas ou em ambientes que passam por algum tipo de stress - de clima ou outra dificuldade como solo, pragas, doenças ou ervas daninhas, por exemplo - é o que permite que a produção de uma série de itens se estenda por uma área muito maior mas, principalmente, aumentando expressivamente sua produtividade. E o Programa HB4, da Bioceres, é uma das iniciativas da empresa argentina, focada nas melhorias para as culturas da soja e do trigo.

         Os incrementos chegam como reflexo de pesquisa, tecnificação, investimento e testes. Inúmeros testes para que práticas e tecnologias sejam aprovadas - no país onde são produzidas e em seus principais clientes importadores - de forma a implementá-las com escalabilidade, além de serem ainda mais amigáveis à preservação ambiental.

         Em 2020, o Brasil registrou sua primeira colheita de trigo no Ceará e os números foram bastante surpreendentes para uma localidade onde, há alguns anos, seria impensável a produção do grão. O ciclo no estado foi de apenas 75 dias, contra algo entre 140 e 180 dias que duram os ciclos em outras regiões tradicionalmente produtoras do país. Mais do que isso, a produtividade também foi superior se comparada à média do sul brasileiro.

         A produção cearense de trigo foi resultado de uma iniciativa privada em parceria com a Embrapa Trigo, Embrapa Agroindústria Tropical e o Instituto Federal do Ceará.

         E a Bioceres, por meio de Federico Trucco, afirma que a empresa argentina também estuda parcerias com companhias brasileiras, além de estar firmando também suas relações com a Embrapa para levar a produção de trigo em regiões onde ainda não é possível. Trabalhos estão sendo feitos também com a soja. As expectativas são de que o trigo chegue em dois anos aos campos brasileiros e a oleaginosa, já no próximo ano.

         O avanço dos estudos é o que permite com que os pesquisadores possam entender e conhecer novos ambientes, territórios, além das variedades, de forma a identificar o potencial das áreas e os melhores produtos que podem ser cultivados naquelas regiões. São cruzamento de dados, estudo, pesquisa e aprimoramento genético.         

         A Bioceres é, na verdade, mais uma peça do agronegócio global que CONTRARIA. Contraria a seca, o clima inadequado, a baixa produtividade e resultados inexpressivos. Contraria qualquer impossibilidade de produzir. Quem dera a sociedade urbana tivesse o mesmo empenho em contrariar conceitos ultrapassados sobre a evolução tão clara do campo.